Crônicas

Brotam, simplesmente: delírio carioca em câmera lenta

Às vezes, as coisas das quais mais gostamos não são coisas, e sim, memórias. Esses resíduos de existência têm umas esquisitices amorfas, incorpóreas, como um ‘ar’ de vendedores ambulantes em engarrafamentos: apenas brotam. Do nada. Em função única e exclusiva dessas ocasionais caravanas estagnadas – verdadeiras procissões suspensas – em que o asfalto, enfim, respira. Uma respiração congestionada. É isso, cinematograficamente falando: as reminiscências brotam. Do rés do chão. Da fervura titubeante do betume gasto. Da realidade simples. De um descuido do olhar, exausto da mesmice extenuante, o perceber do movimentar da paisagem, um segundo antes da fonética abafada dos jingles de esquina. Batalha de rimas, expressão genuinamente brasileira, rasgando o culto da língua.

Paçoca é um real/ leve onze, pague dez real!
Olha o amendoim torrado! / é doce, é salgado, é barato, é sagrado!
Bala, chiclete e paçoca, / quem compra alegria, o tédio desloca!
Capinha, carregador e esperança / o pacote completo pra quem não tem lembrança!
Olha o mate! / Mate a sede! / Olha o mate, tem limão, natural e leão!

Uma medina babelesca em tons verdes e amarelentos com suas barracas-corpos, mascates contemporâneos incorporando as mais básicas leis de oferta e procura: o largar de ensacoladas iguarias nos espelhos laterais dos carros; a malemolência dos chinelos emborrachados batucando chaves pix e pregões aos quatro cantos; ofertas de produtos sem valor, recheados de ecos de outrora. Uma bala juquinha reativa o paladar da infância, e você compra, mesmo com as taxas elevadas de diabetes; uma coca-cola estupidamente gelada dentro do isopor equilibrado, com esmero, na cabeça lisa e firme de um rapaz igual a todos os outros, faz você catar moedinhas só pelo barulho satisfatório e salivar que a abertura do lacre metálico carrega. É a fantasia do hiato, da bolha, do rolar dos dedos nas telas descarregadas dos celulares, a insatisfação das postagens que mascaram momentos como o presente, qual vida querendo passar corrida, mas comprida. A memória é culto e altar de todas as formas, odores, pesos e asperezas, o assobio descarrilhando trens automatizados. É no retrovisor do carro, quando carecemos de recursos distrativos, cafeína e paciência que esses souvenirs do acaso nos assaltam: fragmentados, vadios e apostólicos.

Bia Mies

BIA MIES é carioca da Serra Fluminense, autointitula-se "do mundo" e reflete em sua escrita um olhar sensível sobre a vida do seu "entremeio": cada crônica torna-se uma interação entre o trivial e a reflexão poética, uma tapeçaria de influências e insights. Tece pontes entre arquitetura, urbanismo, artes visuais e cênicas, moda, leituras, cafés, viagens, família, amores, Zeca (seu fiel companheiro de quatro patas), amigos, Itália e "experiências dos usuários", área na qual atualmente se especializa. Cada percepção transforma-se em texto, numa busca exploratória de pensamentos e emoções, através de uma visão pessoal do cotidiano e do extraordinário. Celebra a beleza da imperfeição e convida o leitor a uma jornada introspectiva, onde cada palavra é cuidadosamente escolhida para ressoar e provocar. Como o sopro das vivências que se entrelaçam pelo seu caminho, Bia Mies homenageia quase duas décadas de exploração literária no Crônicas Cariocas.

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